Mineradora no Vale do Jiquiriçá é alvo de graves denúncias do Intercept

O site Intercept Brasil publicou matéria fazendo graves acusações contra a mineradora que tem feito estudos para exploração de terras raras no Vale do Jiquiriçá.

Segundo a publicação, a bilionária Gina Rinehart, considerada a mulher mais rica da Austrália e amiga de Donald Trump, está por trás da mineradora estrangeira.A mineração tem sido propagada como oportunidade de desenvolvimento econômico e social para o estado da Bahia.

A publicação aponta mineração em áreas de preservação ambiental e a intenção de retirar urânio em terras da região. Já há confirmação de que neodímio, praseodímio, ítrio e térbio serão extraídos.Projeto de mineração de terras raras no Vale do Jiquiriçá

O projeto Burro Morto está em fase de licenciamento ambiental. No primeiro semestre deste ano, a redação do Mídia Bahia foi visitada por representantes da empresa Borborema, que explanaram o plano de exploração de terras raras, previsto para início em 2030.

O projeto inclui uma planta de separação que ficará em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, onde vão se concentrar o maior volume de ofertas de empregos.

Alguns questionamentos feitos pelo Mídia Bahia não foram respondidos pelo representante da empresa. Contudo, ele esclareceu que o projeto não conta com construção de barragens de rejeitos. E reconheceu que o material encontrado nessa região específica é único no mundo, diante da alta concentração de terras raras, sendo o dobro de outras avaliadas em outras partes.Só a título de complemento, enquanto o projeto Serra Verde opera com 0,12% de TREO, no Monte Alto o teor médio chega a 11,3%.

A mineradora interessada é a australiana Brazilian Rare Earths, a BRE, que, no Brasil, é representada pela mineradora Borborema.

Bahia concentra projetos de mineração de terras raras

A Bahia está no centro dos projetos minerários, segundo estudo feito pelo Intercept junto ao Sistema de Informações Geográficas da Mineração, da Agência Nacional de Mineração (ANM). O Vale do Jiquiriçá concentra mais da metade das pesquisas.

A estimativa é que pelo menos 20 agricultores familiares sejam impactados.

Os projetos receberam aval do governo federal e do governo da Bahia. A surpresa surge com a informação de que, por ter minerais radioativos, o empreendimento também pediu autorizações de exploração à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).

167,6 mil hectares estão sob o controle da Brazilian Rare Earths na região do Vale do Jiquiriçá.Agricultores relatam mudanças na rotina e pressão para vender terras

Um representante do site visitou a região e constatou que mudanças já estão ocorrendo no cotidiano rural: a presença constante de máquinas para pesquisas, circulação de caminhões-caçamba, barulho, alargamento de estradas e as supostas investidas de representantes da empresa para que moradores negociem suas terras.

Das 120 famílias presentes na região do Monte Alto, 17 afirmam que já venderam propriedades para a mineradora.

Uma moradora identificada pelo codinome Berenice disse ter medo de ser identificada oficialmente. Ela alega estar sofrendo pressão psicológica para que venda as terras, está com medo e já adoeceu.

“Enquanto eles avançam, sentimos o peso de deixar para trás nossas vidas, a nossa paz e a separação de várias famílias”, conta Berenice.

A empresa foi procurada para revelar quantas negociações já foram feitas ou estão em andamento. Contudo, esses questionamentos não foram respondidos.Mineração em áreas de preservação ambiental

Pesquisas apontam que os direitos minerários adquiridos estão sob terras da Área de Proteção Ambiental (APA) Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, com nascentes e quedas d’água, como a Cachoeira do Guigó.

No Brasil, não existe lei que impeça a mineração em APA, desde que a Agência Nacional de Mineração, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, autorize.

A denúncia também aponta que a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães está na mira da mineradora.

Borborema recebeu autorização para exploração experimental

O projeto está na fase de “direito de requerer lavra”, terceira de cinco fases. Contudo, em março deste ano, a Borborema conseguiu autorização para pular etapas, recebendo permissão para exploração de 2 mil toneladas de minério por ano, por três anos.

Procurada pelo Intercept, a Borborema garantiu que ainda não começou a extração. Apenas informou que a operação depende das “autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis”.

O caso está em análise pelo governo da Bahia, sob gestão de Jerônimo Rodrigues, do PT, candidato à reeleição, que explicou que a “lavra experimental” só poderá começar a ser explorada após receber autorização.

Empresa responde a denúncias de assédio

Sobre as denúncias de assédio, a Borborema disse que “não admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de empregados, prestadores de serviços ou representantes”. Ainda disse estar “disponível para apurar formalmente qualquer relato dessa natureza” e tomar “as providências cabíveis”.

Ainda de acordo com a empresa, “as negociações são realizadas de forma individualizada, com base em avaliações técnicas”.

“Eventuais direitos legais do proprietário da superfície relacionados a uma futura produção mineral permanecem preservados e são distintos da negociação imobiliária.”

A Synergia não respondeu aos questionamentos feitos pelo Intercept. O espaço segue aberto.

Fonte:Midia Bahia

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